
Maratona de Porto Alegre
Na 21ª edição, a Maratona de Porto Alegre voltou às origens. Havia 13 anos a prova não tinha uma dobradinha gaúcha - em 1991, Volmir Herbstrith e Antônia da Silva venceram. Pois ontem, teve: Claudir Rodrigues, de Ibarama, foi o campeão entre os homens, enquanto Rosa Jussara Barbosa, de Alpestre, foi a melhor entre as mulheres. Ambos cruzaram a linha de chegada na frente pela segunda vez na carreira.
A glória, o prêmio e as atenções da mídia sempre voltam-se para os vencedores. Mas aqueles que, apesar da bela manhã ensolarada de domingo, enfrentaram o frio de 11ºC para fazer a Maratona de Porto Alegre "atingir a maioridade" com grande estilo foram os anônimos. Pais e filhos, fantasiados ou em trajes esportivos, sozinhos ou em grupos, correndo ou caminhando. Até quem não estava participando, apreciou a prova: sentados em frente ao palanque de imprensa ou nas calçadas das ruas que formam o percurso, tomando chimarrão, passeando com o cachorro. O medalhista olímpico Robson Caetano, que veio a Porto Alegre avaliar a maratona pela Confederação Brasileira de Atletismo, rendeu-se à participação do público e dos competidores:
- Dá vontade de entrar e participar da festa.
Festa que se iniciou às 7h34min com a largada da prova feminina e se estendeu durante toda a manhã. Uma festa na qual, mais importante do que o resultados, foi a vontade de superar limites, encarar desafios, brincar ou, simplesmente, correr.
A expectativa era saber onde ocorreria o encontro entre os líderes masculino e feminino. Pela primeira vez, as mulheres largaram com 26 minutos de antecedência. Claudir, campeão em 2002, já estava na ponta quando ouviu os incentivos de Rosa, a primeira entre as mulheres, ao ultrapassá-la em frente ao Corpo de Bombeiros, depois de 36 quilômetros percorridos. E os dois continuaram solitários na disputa até o final.
Rosa, bicampeã consecutiva, não esperava uma prova tão fácil. Estava desgastada por ter participado da Maratona de São Paulo, no início do mês. E este foi o assunto entre ela e Maria das Graças Moreira. As duas correram lado a lado até o quilômetro 25, quando a atleta natural de Parelhas, Rio Grande do Norte, abandonou.
- Iria até o fim se não sentisse nada. Como minha perna começou a puxar, disse para a Rosa: "vai tranqüila, eu vou parar" - conta Maria das Graças.
Como não estavam disputando posições, as duas se ajudaram durante a prova. Uma passava água à outra. Há 28 dias, em São Paulo, não foi assim. Rosa, 28 anos, ficou em quinto lugar na prova de São Paulo, apenas 12 segundos à frente de Maria das Graças. Depois do abandono da principal adversária, a atleta gaúcha, cujas primeiras corridas foram dadas para economizar passagem de ônibus, só foi ver Claudir, 11 quilômetros depois. De vez em quando olhava para trás, não acreditando estar tão distante das outras.
Claudir teve uma prova mais equilibrada. Assumiu a liderança na metade do trajeto e se distanciou do segundo colocado quando faltavam 12 quilômetros para o final. Bem como tinha planejado.
- Maratona é estratégia. Dosei a prova e cheguei inteiro - explica o ex-cabo do 7º Batalhão de Infantaria Blindada de Santa Maria, que subiu a Silva Só, nos metros finais, com uma resistência física impressionante.
O gaúcho de 27 anos é disciplinado. Mora em Santa Maria, mas treina sozinho. Seu técnico, o cubano Lázaro Velasquez, da UCS, passa instruções por telefone. A dificuldade da distância é amenizada pela confiança entre ambos, além da dedicação do atleta.
- Em abril, fomos à Maratona de Roterdã, na qual havia pelo menos 50 africanos, e o Claudir terminou em 16º. Ali, ele percebeu seu potencial. Ele será um dos grandes nomes do próximo ciclo olímpico - prevê Lázaro, que há cinco anos trocou Cuba por Caxias do Sul.
Assim como Claudir, Rosa tentará brigar por uma vaga olímpica na próxima oportunidade (para Atenas, os atletas já estão definidos). Se os dois conseguirem, realçarão, como ontem, os atletas do Rio Grande do Sul.
- Essa vitória foi importante para destacar os talentos gaúchos. No Estado, há muitos bons corredores, mas todos são pouco reconhecidos - conclui a campeã.
( deca.soares@zerohora.com.br )
( guilherme.fister@zerohora.com.br )
DECA SOARES E GUILHERME FISTER
Os campeões
Masculino
- 1º) Claudir Rodrigues
(UCS/Natufarma) 2h15min52s
- 2º) Antônio Ferreira da Silva
( Pé de Vento) 2h17min04s
- 3º) Rildo Alves
(sem clube) 2h18min36s
- 4º) Antônio Carlos P. Gomes
(Ulbra/Brasil Telecom) 2h21min46s
- 5º) Fabiano da Silva Guimarães
(Ulbra/Brasil Telecom) 2h23min16s
Feminino
- 1º) Rosa Jussara Barbosa
(Via Sal) 2h46min05s
- 2º) Luciana da Luz
(Correios) 2h52min42s
- 3º) Maria Elaine Machado
(sem clube) 2h56min08s
- 4º) Roseli Dutra
(APE/Gratio Seguros) 2h56min23s
- 5º) Raimunda Carlos Lima
(sem clube) 2h56min49s
Cadeirantes
- 1º) Altemir Luís de Oliveira
- 2º) Carlos Roberto de Oliveira
Rústica
Masculino
- 1º) Edegar Lobo
(Ulbra) 26min01s
- 2º) Tauro Bonorino
(Ulbra) 26min19s
- 3º) Paulo Castannetti
(UCS/Bento) 26min22s
Feminino
- 1º) Teresa Benittis
(sem clube) 34min02s
- 2º) Leonir Canal
(sem clube) 34min20s
- 3º) Rosane Hack
(Diadora) 34min21s
Maratoninha
Masculino
Lindomar Júnior
Feminino
Rafaela Ritz dos Santos
Jornal Zero Hora
31/05/2004
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